Quem são os Tao Tei de A Grande Muralha?

Atualizado em: 30 de julho de 2017

A Grande Muralha (2016) abre com uma panorâmica sobre a monumental construção que lhe deu nome, considerada uma das sete maravilhas do mundo moderno. Os textos explicativos informam o espectador que ela “permaneceu durante séculos como uma das maravilhas mais duradouras da humanidade (…). Ela protegia [o império chinês] de muitas ameaças. Algumas são conhecidas. Algumas são lendas. Esta é uma das lendas”. O filme conta a história de dois mercenários europeus, William (Matt Damon) e Tovar (Pedro Pascal), que procuravam pólvora quando acabaram se envolvendo na defesa da Grande Muralha da China contra uma horda de monstros conhecidos como “Tao Tei”.

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Tao Tei nos arredores da Muralha da China.

O conceito dos monstros de A Grande Muralha vem do termo t’ao-t’ieh ou taotie, cujas origens remontam à mitologia chinesa e sua representação através de elementos decorativos da arte do bronze. Dentre os vários artefatos produzidos pela civilização chinesa antiga, aqueles feitos em bronze sempre despertaram interesse nos arqueólogos pelo seu design sofisticado. Para as elites dos períodos Shang (c. 1600 a.C. – 1046 a.C.) e Chou (c. 1046 a.C. – 256 a.C.), os vasos feitos desse metal eram objetos rituais por excelência, pois serviam para armazenar o alimento destinado às cerimônias religiosas. Porém, não se sabe exatamente como esses recipientes eram usados, uma vez que as cerimônias do período Shang continuam sendo um mistério.

Acredita-se que o propósito das cerimônias era nutrir os espíritos ancestrais dos clãs, prática originária da crença pré-histórica de que os espíritos exigiam animais recém sacrificados — portanto, eles precisariam ser literalmente alimentados com sangue. Do ponto de vista do design e da estilística, a decoração dos vasos tem valor intrínseco. Para aqueles que os encomendavam e usavam, o aspecto ritualístico era primordial; como os rituais eram oferendas de alimentos, os vasos adquiriam extrema importância.

Os designs em bronze são fascinantes. Um motivo característico dos vasos do período Shang é a chamada máscara de taotie ou monstro, essencialmente uma face dividida ao meio e esticada no metal para que parecesse ter dois perfis ou um único rosto. Existem inúmeros tipos de taotie, que variam de acordo com a época de sua manufatura, com as diferenças regionais e com as inovações nas técnicas do artesanato. Eles eram utilizados também para adornar outros objetos, não apenas vasos. Em geral, a máscara era dotada de chifres e desprovida de mandíbula, e possuía um corpo que lembrava o desenho de um animal dividido ao meio.

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Decoração de cavalos na forma de máscara taotie, c. 1300-1050 a.C., China; Dinastia Shang (c. 1600-1050 aC). Cortesia do Asian Art Museum, The Avery Brundage Collection, B60B647. Fonte: https://www.khanacademy.org/
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Diagrama preparado por Edith Watts, The Metropolitan Museum of Art; Design de Sue Koch. Fonte: http://afe.easia.columbia.edu/

Pela semelhança com um dragão, o taotie foi relacionado ao lung, termo usado pelos chineses posteriormente  (e invariavelmente traduzido como “dragão”) para designar uma criatura fantástica. Na cultura chinesa tardia, o conceito de lung refere-se a um poderoso espírito masculino da fertilidade, com aparência de serpente, chifres, pernas e garras, que habita as profundezas das lagoas no inverno, sobe aos céus durante as tempestades da primavera e traz a chuva. O design do taotie, embora complexo, é similar à simbologia associada ao lung.

A figura do taotie está presente nos vasos de bronze mais antigos já encontrados, porém sua origem permanece um mistério. Diversas hipóteses foram propostas. A suposição inicial era a de que ele representava o animal sacrificado (um tigre ou crocodilo, por exemplo). Contudo, essa e outras especulações foram refutadas. Pode mesmo ser um erro pensar que seu significado fosse tão preciso para os artesãos da época. Além disso, o termo t’ao-t’ieh deriva de um texto do século III a.C., o Lü-shih ch’un-ch’iu, e significa “glutão”, um termo que não corresponde ao design padrão dos vasos. O que se nota é que os artistas do período Shang pareciam seriamente obcecados com formas de animais reais e imaginários.

O conceito foi adaptado para as telas de forma original, com um pé na tradição e o outro na fábrica de monstros de Hollywood. Os Tao Tei, como são chamados em A Grande Muralha, são criaturas grotescas. A cabeça é acoplada a um tórax robusto, com membros dianteiros longos e fortes, como os de um gorila. Porém, ela não passa de uma caveira descarnada, com sulcos rugosos que lembram metal retorcido. As órbitas são vazias, como se uma estranha evolução fizesse os globos migrarem para os ombros. Aí colocados, emulam dois perfis opostos. O crânio atrofiado e a boca cheia de dentes (sim, eles têm mandíbula) são o ponto em que esses dois perfis se encontram e se projetam para a frente. Um padrão decorativo se estende da fronte até as costas. A cintura e os membros traseiros, e os movimentos furtivos, são de lobo. A coloração da pele é verde, tom similar àquele das peças de bronze oxidado. Visual certamente inspirado nos antigos vasos chineses.

Mas é a interpretação de Hollywood que prevalece. No filme, os Tao Tei chegaram à Terra em um asteroide verde que caiu na montanha Gouwu 2.000 anos antes da história contada. Tal qual as abominações cósmicas de H.P. Lovecraft, são uma ameaça vinda do espaço. Sua morada é a montanha, onde vivem em estado de hibernação durante um ciclo de 60 anos. Sempre que o ciclo se fecha, eles despertam para se alimentar. São glutões temidos pela fome insaciável. Feras monstruosas, altamente proficientes e violentas, híbridos de alienígena com o ghoul do folclore árabe. Suas legiões se comportam como um enxame que devora tudo em seu caminho. Assim, o filme cria a sua própria lenda. Transforma os taotie em monstros “enviados pelo céu para punir a ganância do homem”. Vale lembrar que, na China antiga, acreditava-se que os eventos no céu refletiam diretamente os eventos na Terra. Se um cometa aparecesse repentinamente, por exemplo, algo importante e inesperado estava prestes a acontecer, talvez uma grande batalha. Ou uma invasão de seres do espaço?

Fontes:

PAPER, Jordan. “The Meaning of the ‘T’ao-T’ieh'” in History of Religions, Vol. 18, n. 1 (agosto, 1978), p. 18–41.

Asia for Educators – The Great Bronze Age of China: An Exhibition from the People’s Republic of China at The Metropolitan Museum of Art, New York. Disponível em: <http://afe.easia.columbia.edu/special/china_4000bce_bronze.htm&gt;.

The chinese sky. In: The International Dunhuang Project: The Silk Road Online. Disponível em: <http://idp.bl.uk/education/astronomy/sky.html&gt;.

Shang dynasty ritual bronze vessels. Disponível em: <https://www.khanacademy.org/humanities/art-asia/imperial-china/shang-dynasty/a/shang-dynasty-ritual-bronze-vessels&gt;.

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