A História da Produção do Filme Hércules – Parte 3

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Musker, Clements e a equipe de criação trabalharam os personagens e as cenas em animadas sessões de storyboards. Assim que a história fica pronta os atores colocam suas vozes dando uma nova dimensão aos personagens. O elenco olímpico inclui os talentos de Tate Donovan como o lendário Hércules; Dani DeVito como Phil, o treinador meio-homem, meio-bode; Susan Egan, como Meg, acerta o coração do herói; James Woods, como o esquentado Hades, senhor do mundo das trevas.

James Woods (voz de Hades): Todos sabem que está funcionando se todos estiverem rindo. Se não estiverem rindo vamos pensar em algo melhor.

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Hades (James Woods)

Os trapalhões e atrapalhados personagens Pânico e Agonia recebem um tratamento hilário de Bobcat Goldthwait e Matt Frewer. Lip Torn faz o poderoso e amoroso Zeus. Paul Schiffer empresta a sua personalidade ao mensageiro Hermes. E a narração de Charlton Heston ajuda a preparar o palco para a comédia.

Narração de Charlton Heston (dublada): Há muito tempo, na longínqua Grécia Antiga, houve uma época de ouro de deuses poderosos e heróis extraordinários. E o maior e mais forte de todos esses heróis foi o poderoso Hércules. Mas como se avalia um verdadeiro herói? Bem… É isso que a nossa história… (interrompido pelas Musas)

Com as vozes prontas começa o trabalho dos desenhistas.

Nik Ranieri (Desenhista Animador de Hades): Há uma voz e um desenho, eu quero que combinem bem. James Woods foi muito engraçado, ele transmitia emoção, ficava pulando. Quando eu voltei para o estúdio, o desenho ficou parecido com ele.

Brian Ferguson e James Lopez (Desenhistas Animadores de Pânico e Agonia): Tentamos criar um personagem que definisse a emoção que vinha do seu nome. Podia-se ver isto em seus olhos, e construímos o resto a partir desta emoção em especial.

Conhecido por vilões inesquecíveis como Scar, de O Rei Leão, e Jafar, de Aladdin, o veterano desenhista da Disney Andrea Deja aceitou o desafio de ser o artista por trás do grande herói do filme, Hércules.

Andrea Deja (Desenhista Animador de Hércules): Perguntei: “Como é um herói?”, pensei em alguns dos personagens heroicos do passado e que poderia usar meu lápis e anmá-lo. A voz de Tate Donovan me inspirou muito, porque ele é um ótimo ator, muito expressivo e há uma energia e uma certa ingenuidade em Hércules que descobrimos com o tempo.

A História da Produção do Filme Hércules – Parte 2

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A música é um ponto fundamental nos filmes Disney, e o genial compositor Alan Menken, vencedor de vários Oscars, e o premiado letrista David Zippel deram a Hércules uma trilha sonora de arrebentar.  

Alan Menken: Eu estou em cada música e cada uma tem sua própria personalidade. No caso de Hércules, é uma combinação de Gospel e R&B mesclado com este tema heroico clássico. E isto faz realmente o espírito de Hércules.

Desde o início decidiu-se que as musas Gospel teriam um papel importante na narração desta história extraordinária.

John Musker e Ron Clements (diretores, produtores e roteiristas): De certa forma, o Gospel se encaixa bem neste filme porque é grandioso e fala de esperança e de sonhos.

Susan Egan: Elas combinam perfeitamente na harmonia e atingem notas que chegam à estratosfera!

Lillias White (voz de Callíope): Usamos as musas para conduzir a história suavemente. As músicas são R&B, Gospel e Rock.

Making of de “Zero to Hero” lançado pela Disney em 2016, nas comemorações de 19 anos de Hércules. Mais informações em: moviepilot.com

A História da Produção do Filme Hércules – Parte 1

O longa de animação Hércules, do Walt Disney Animation Studios, foi lançado em junho de 1997 nos Estados Unidos. No mês seguinte chegou ao Brasil, e em março de 1998 foi lançado em VHS pela Abril Vídeo na coleção Walt Disney Clássicos (talvez a fita verde refresque a sua memória). Em comemoração aos 20 anos desse filme dos estúdios Disney, inspirado no mito grego de Héracles (conhecido pelo nome romano, Hércules), fiz a transcrição do material bônus do VHS, o interessante documentário sobre a história da produção do filme. A transcrição foi dividida em 4 partes, que serão postadas nos próximos dias.

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Só o inigualável talento da equipe Disney poderia transformar esta lenda da mitologia em um dos mais sensacionais desenhos animados que você já viu.

John Musker e Ron Clements (diretores, produtores e roteiristas): É o primeiro desenho da Disney baseado na mitologia ao invés de contos de fada ou histórias populares.

A história conta as incríveis histórias de Hércules desde a adolescência até a idade adulta. Enquanto luta contra as forças do Mal ele aprende o que é preciso para se tornar um verdadeiro herói.

Joshua Keaton (voz de Hércules jovem): Ele era um deus, filho de Zeus. Ele, basicamente, veio para a Terra, se tornou mortal e não pode voltar ao Olimpo, a não ser que prove ser um verdadeiro herói.

Tate Donovan (voz de Hércules adulto): Ele começa o filme querendo muito ser um herói, só pelo glamour da coisa. Logo descobre, lutando com monstros terríveis, o que é um herói de verdade.

Criadores de sucessos como A Pequena Sereia e Aladdin, os diretores John Musker e Ron Clements transformaram a lenda de Hércules num desenho animado divertido e cheio de ação, que agrada a pessoas de todas as idades.

John Musker e Ron Clements: É uma comédia épica, ao contrário da expectativa das pessoas quanto à mitologia grega. Tiramos o aspecto acadêmico da história e a tornamos mais contemporânea e divertida.

Alice Dewey (Produtora): Musker e Clements são diretores e roteiristas, e são as pessoas mais engraçadas com que já trabalhei. Com certeza, a marca registrada deles é a irreverência, o que dá ótimas comédias.

Odin, mais conhecido como Gládio de Guerra, Mascarado, Andarilho… e Sr. Quarta-Feira

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Mr. Wednesday (Ian McShane), na série American Gods.

O Sr. Quarta-Feira é um personagem central de American Gods. Ele é um dos deuses antigos, mas não é um deus qualquer. É Odin, a deidade suprema dos escandinavos, criador do universo e do homem, senhor de Valhalla e pai de vários deuses, como Thor e Balder. Seu nome deriva do termo ódr, que em nórdico arcaico é equivalente ao latim furor. Ele também possui nomes mais antigos, com o mesmo significado: Wöden (Anglo-saxão), Woden (Saxão antigo), Wodan (Francônico antigo), Wutan e Wuotan (Antigo Alto Alemão), entre outros.

De acordo com American Gods, Odin chegou ao Novo Mundo com um grupo de exploradores nórdicos no ano de 813 d.C., e desde então vive nos Estados Unidos. Ao revelar a sua verdadeira identidade a Shadow Moon, no episódio final da primeira temporada (Come to Jesus), o Sr. Quarta-Feira entoa: “Eu sou Gládio de Guerra, Mascarado, Andarilho e Terceiro. Eu sou O Caolho, também chamado de O Superior e Verdadeiro Adivinho. Eu sou Grimnir e o Encapuzado. Eu sou O Pai de Todos, Gondlir, O Portador do Cajado. Eu tenho tantos nomes quanto são os ventos e tantos títulos quando são as formas de morrer. Meus corvos são Hugin e Munin, Pensamento e Memória, meus lobos são Freki e Geri, meu cavalo é o Cadafalso. EU SOU ODIN!”. O céu se fecha e relâmpagos explodem em todas as direções, impelidos pelo seu poder divino.

O Sr. Quarta-Feira faz alusão aos seus vários nomes (seriam cerca de 170, a maioria inventada durante a Alta Idade Média). No inglês arcaico (Saxão), Odin era denominado Woden; a palavra moderna Wednesday (quarta-feira, em inglês) vem de Woden’s day (“dia de Woden”), por isso, “Sr. Quarta-Feira”. Os nórdicos e os saxões tinham uma cultura e uma religião muito parecidas; e, embora os saxões tenham adotado o cristianismo depois de sua migração para a Bretanha, ainda há reminiscências do seu passado mitológico na variante moderna de sua língua, o inglês.  O personagem também menciona seus míticos animais de estimação: dois corvos, dois lobos e o cavalo de oito patas, todos presentes na literatura nórdica mais antiga.

A concepção do personagem para a série, engrandecida pela performance do ator Ian McShane, revela características marcantes de sua identidade secreta divina. A inteligência aguçada e os comentários perspicazes (para não dizer irônicos), próprios do deus nórdico da sabedoria; a onisciência, que lhe permite pôr ordem na hierarquia dos deuses; a dissimulação, capacidade de viajar incógnito, sempre nos bastidores do mundo dos homens; o gosto por hidromel, a bebida dos deuses. Vale lembrar que Odin, para obter o conhecimento, ficou cego de um dos olhos. A aparência morta da pupila direita é uma dica para a identidade do personagem, desde sua primeira aparição.

“Atlas, Rise!”, do Metallica

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Fan-art baseada na música Atlas, Rise! Fonte: Pinterest.com

Na segunda faixa de Hardwired… to Self-Destruct (2016), décimo álbum de estúdio do Metallica, a banda norte-americana recorreu à mitologia, território muito explorado pelo heavy metal. A música “Atlas, Rise!” faz referência à mitologia grega, seguindo uma tradição do metal que remonta à épica “Achilles Last Stand” (1976), do Led Zepellin. Sem contar as inúmeras referências à mitologia nórdica e às criações literárias de J.R.R. Tolkien, presentes no trabalho de bandas como Iron Maiden, Manowar e Tuatha de Danann, não é novidade que as histórias gregas de heróis e grandes batalhas tenham sempre alimentado o gosto do metal pelo gênero épico.

Mas “Atlas, Rise!” traz um diferencial. A banda optou por fazer um som que não girasse em torno de um personagem heroico, como Aquiles ou Odisseu. Ao invés disso, escolheu a imagem familiar de Atlas carregando o mundo sobre os ombros. Marcada por um acorde mais trágico, a música toca em um detalhe importante: o fardo de Atlas é, na verdade, um castigo. Isso fica evidente nos seguintes versos:

Bitterness and burden
Curses rest on thee
Solitaire and sorrow
All eternity

Amargura e fardo
Maldições repousam sobre ti
Solidão e sofrimento
Por toda a eternidade

How does it feel on your own?
Bound by the world all alone
Crushed under heavy skies
Atlas, rise!

Como te sentes por conta própria?
Ligado ao mundo, sozinho
Esmagado sob céus pesados
Atlas, levanta-te!

Na mitologia, Atlas pertence à geração arcaica, a dos seres monstruosos, que antecede a geração dos deuses olímpicos. É filho de Jápeto e da oceânide Clímene (ou de Ásia), e irmão de Menécio, Prometeu e Epimeteu. Em outra versão da lenda, Atlas é filho de Urano e, portanto, irmão de Cronos. Ele participou da luta entre os deuses e os gigantes, e recebeu de Zeus a punição de carregar em seus ombros, por toda a eternidade, a abóbada celeste — não apenas o mundo, como a música deixa claro. Não passou despercebido que o seu sofrimento será eterno, cheio de rancores que esmagam suas costas.

Quem são os Tao Tei de A Grande Muralha?

Atualizado em: 30 de julho de 2017

A Grande Muralha (2016) abre com uma panorâmica sobre a monumental construção que lhe deu nome, considerada uma das sete maravilhas do mundo moderno. Os textos explicativos informam o espectador que ela “permaneceu durante séculos como uma das maravilhas mais duradouras da humanidade (…). Ela protegia [o império chinês] de muitas ameaças. Algumas são conhecidas. Algumas são lendas. Esta é uma das lendas”. O filme conta a história de dois mercenários europeus, William (Matt Damon) e Tovar (Pedro Pascal), que procuravam pólvora quando acabaram se envolvendo na defesa da Grande Muralha da China contra uma horda de monstros conhecidos como “Tao Tei”.

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Tao Tei nos arredores da Muralha da China.

O conceito dos monstros de A Grande Muralha vem do termo t’ao-t’ieh ou taotie, cujas origens remontam à mitologia chinesa e sua representação através de elementos decorativos da arte do bronze. Dentre os vários artefatos produzidos pela civilização chinesa antiga, aqueles feitos em bronze sempre despertaram interesse nos arqueólogos pelo seu design sofisticado. Para as elites dos períodos Shang (c. 1600 a.C. – 1046 a.C.) e Chou (c. 1046 a.C. – 256 a.C.), os vasos feitos desse metal eram objetos rituais por excelência, pois serviam para armazenar o alimento destinado às cerimônias religiosas. Porém, não se sabe exatamente como esses recipientes eram usados, uma vez que as cerimônias do período Shang continuam sendo um mistério.

Acredita-se que o propósito das cerimônias era nutrir os espíritos ancestrais dos clãs, prática originária da crença pré-histórica de que os espíritos exigiam animais recém sacrificados — portanto, eles precisariam ser literalmente alimentados com sangue. Do ponto de vista do design e da estilística, a decoração dos vasos tem valor intrínseco. Para aqueles que os encomendavam e usavam, o aspecto ritualístico era primordial; como os rituais eram oferendas de alimentos, os vasos adquiriam extrema importância.

Os designs em bronze são fascinantes. Um motivo característico dos vasos do período Shang é a chamada máscara de taotie ou monstro, essencialmente uma face dividida ao meio e esticada no metal para que parecesse ter dois perfis ou um único rosto. Existem inúmeros tipos de taotie, que variam de acordo com a época de sua manufatura, com as diferenças regionais e com as inovações nas técnicas do artesanato. Eles eram utilizados também para adornar outros objetos, não apenas vasos. Em geral, a máscara era dotada de chifres e desprovida de mandíbula, e possuía um corpo que lembrava o desenho de um animal dividido ao meio.

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Decoração de cavalos na forma de máscara taotie, c. 1300-1050 a.C., China; Dinastia Shang (c. 1600-1050 aC). Cortesia do Asian Art Museum, The Avery Brundage Collection, B60B647. Fonte: https://www.khanacademy.org/
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Diagrama preparado por Edith Watts, The Metropolitan Museum of Art; Design de Sue Koch. Fonte: http://afe.easia.columbia.edu/

Pela semelhança com um dragão, o taotie foi relacionado ao lung, termo usado pelos chineses posteriormente  (e invariavelmente traduzido como “dragão”) para designar uma criatura fantástica. Na cultura chinesa tardia, o conceito de lung refere-se a um poderoso espírito masculino da fertilidade, com aparência de serpente, chifres, pernas e garras, que habita as profundezas das lagoas no inverno, sobe aos céus durante as tempestades da primavera e traz a chuva. O design do taotie, embora complexo, é similar à simbologia associada ao lung.

A figura do taotie está presente nos vasos de bronze mais antigos já encontrados, porém sua origem permanece um mistério. Diversas hipóteses foram propostas. A suposição inicial era a de que ele representava o animal sacrificado (um tigre ou crocodilo, por exemplo). Contudo, essa e outras especulações foram refutadas. Pode mesmo ser um erro pensar que seu significado fosse tão preciso para os artesãos da época. Além disso, o termo t’ao-t’ieh deriva de um texto do século III a.C., o Lü-shih ch’un-ch’iu, e significa “glutão”, um termo que não corresponde ao design padrão dos vasos. O que se nota é que os artistas do período Shang pareciam seriamente obcecados com formas de animais reais e imaginários.

O conceito foi adaptado para as telas de forma original, com um pé na tradição e o outro na fábrica de monstros de Hollywood. Os Tao Tei, como são chamados em A Grande Muralha, são criaturas grotescas. A cabeça é acoplada a um tórax robusto, com membros dianteiros longos e fortes, como os de um gorila. Porém, ela não passa de uma caveira descarnada, com sulcos rugosos que lembram metal retorcido. As órbitas são vazias, como se uma estranha evolução fizesse os globos migrarem para os ombros. Aí colocados, emulam dois perfis opostos. O crânio atrofiado e a boca cheia de dentes (sim, eles têm mandíbula) são o ponto em que esses dois perfis se encontram e se projetam para a frente. Um padrão decorativo se estende da fronte até as costas. A cintura e os membros traseiros, e os movimentos furtivos, são de lobo. A coloração da pele é verde, tom similar àquele das peças de bronze oxidado. Visual certamente inspirado nos antigos vasos chineses.

Mas é a interpretação de Hollywood que prevalece. No filme, os Tao Tei chegaram à Terra em um asteroide verde que caiu na montanha Gouwu 2.000 anos antes da história contada. Tal qual as abominações cósmicas de H.P. Lovecraft, são uma ameaça vinda do espaço. Sua morada é a montanha, onde vivem em estado de hibernação durante um ciclo de 60 anos. Sempre que o ciclo se fecha, eles despertam para se alimentar. São glutões temidos pela fome insaciável. Feras monstruosas, altamente proficientes e violentas, híbridos de alienígena com o ghoul do folclore árabe. Suas legiões se comportam como um enxame que devora tudo em seu caminho. Assim, o filme cria a sua própria lenda. Transforma os taotie em monstros “enviados pelo céu para punir a ganância do homem”. Vale lembrar que, na China antiga, acreditava-se que os eventos no céu refletiam diretamente os eventos na Terra. Se um cometa aparecesse repentinamente, por exemplo, algo importante e inesperado estava prestes a acontecer, talvez uma grande batalha. Ou uma invasão de seres do espaço?

Fontes:

PAPER, Jordan. “The Meaning of the ‘T’ao-T’ieh'” in History of Religions, Vol. 18, n. 1 (agosto, 1978), p. 18–41.

Asia for Educators – The Great Bronze Age of China: An Exhibition from the People’s Republic of China at The Metropolitan Museum of Art, New York. Disponível em: <http://afe.easia.columbia.edu/special/china_4000bce_bronze.htm&gt;.

The chinese sky. In: The International Dunhuang Project: The Silk Road Online. Disponível em: <http://idp.bl.uk/education/astronomy/sky.html&gt;.

Shang dynasty ritual bronze vessels. Disponível em: <https://www.khanacademy.org/humanities/art-asia/imperial-china/shang-dynasty/a/shang-dynasty-ritual-bronze-vessels&gt;.

Asas de Ícaro, feitas com o mais puro aço da Pensilvânia

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Preston Packard (Samuel L. Jackson) voando alto em direção à Ilha da Caveira.

“E lembrem-se da história de Ícaro, cujo pai lhe deu asas de cera… e advertiu-lhe que não voasse muito perto do Sol. Mas o entusiasmo era grande demais. Então ele voou cada vez mais alto, até o Sol derreter suas asas… e ele caiu no mar. Mas o exército dos Estados Unidos não é um pai irresponsável. Ele nos deu asas para lutar, feitas de aço quente fundido na Pensilvânia”. Estas são as palavras do tenente Preston Packard enquanto a sua esquadra de helicópteros atravessa uma tempestade elétrica. Típico solilóquio de Samuel L. Jackson, à prova de tudo e acima do Bem e do Mal. Em Kong: A Ilha da Caveira (2017), Packard comanda um destacamento das forças armadas norte-americanas, recém-retiradas do Vietnã em 1973, com a missão de escoltar um grupo de cientistas a uma ilha desconhecida, lar do poderoso Kong.

No intuito de levantar a moral dos seus homens, Packard narra uma história das mais conhecidas da mitologia grega, a fábula de Ícaro. O personagem principal desta história é filho de Dédalo com uma escrava de Minos, lendário soberano da ilha de Creta. Encarcerados no labirinto pelo rei, Ícaro e o pai puderam escapar graças aos pares de asas fabricadas por Dédalo. O artífice colou as asas com cera, prendendo-as deste modo aos seus ombros e aos do filho. Em seguida, ambos levantaram voo. Antes de partir, Dédalo recomenda a Ícaro que não voe nem muito baixo nem muito alto, advertindo-lhe que fique longe do Sol. Ícaro, entretanto, orgulhoso e entusiasmado de poder voar, ignora o conselho do pai e eleva-se cada vez mais nos ares, aproximando-se tanto do Sol que a cera derrete, as asas se desmancham e ele cai no mar. Os antigos explicavam a fábula das asas de Ícaro, relacionando-a à invenção da vela das embarcações. Segundo algumas versões, Dédalo e Ícaro fugiram de Creta em um barco. Certamente teriam mais sorte em um helicóptero de carga Chinook CH-47.