Categoria: Cinema

De olhos bem abertos: um novo alienígena, um velho mito

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Combinação de fantasia, western e road movie, Han Solo: Uma História Star Wars (2018) segue os passos do icônico contrabandista do espaço vivido por Harrison Ford na trilogia original (1977, 1980, 1983), anos antes dele conhecer o fazendeiro Luke Skywalker e o velho jedi Obi-Wan Kenobi. Dessa vez foi Alden Ehrenreich quem deu vida à sua versão mais nova, com direito aos trejeitos de canastrão que viraram marca registrada do carismático personagem.

Em uma cena que nos remete à cantina de Mos Eisley, momento antológico do primeiro Star Wars, Solo aposta tudo o que tem (e o que não tem) em um jogo de cartas chamado sabacc, diante dos olhos curiosos de vários alienígenas — e dos vários olhos de um deles, em especial. Seu nome é Argus “Seis Olhos” Panox, ele é um Azumel do sexo masculino e um exemplar bastante descolado da sua espécie.

Embora tenha ficado popularmente conhecido na galáxia pela fisiologia peculiar, o primeiro nome do alienígena vem de um personagem da mitologia grega, o célebre Argo (mais conhecido pela forma latinizada do nome, Argos). Alguns dizem que Argo possuía um só olho, enquanto outros sugerem que teria quatro, um par para ver de frente e o outro para olhar para trás. Outras versões atribuíam-lhe uma infinidade de olhos espalhados por todo o corpo.

O Inferno de Thanos

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Atualizado em: 9 de maio de 2018.

Aproveitando a comoção mundial com o filme Vingadores: Guerra Infinita (Anthony e Joe Russo, 2018), vale ressaltar o que parece uma clara referência à Divina Comédia, do italiano Dante Alighieri. Considerado uma das obras mais importantes da literatura, esse poema medieval dividido em três partes — “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso” — tem inspirado a cultura popular há séculos, com sua grande variedade de temas e personagens. A história é bem conhecida. No início da primavera de 1300, Dante está perdido e sozinho em uma floresta sombria e ameaçadora. Para sobreviver a essa provação, ele deve visitar os três reinos da vida após a morte. O primeiro deles é o Inferno. A viagem pela morada eterna das almas perdidas, através dos nove círculos infernais, leva-o até o abismo no centro da terra. O narrador é o próprio Dante, que escolhe como guia o poeta clássico que ele mais admirava: Virgílio (70-19 a.C.). Famoso pelo épico Eneida, Virgílio viveu na Roma de Júlio César e Augusto, durante a transição da república para o império. A Divina Comédia é uma obra representativa da visão de mundo medieval, dominada pelo pensamento cristão, e funciona como alegoria da jornada da alma em direção a Deus. No aclamado terceiro filme dos Vingadores, o tirânico Thanos (Josh Brolin) segue em sua busca incansável pelas Gemas do Infinito, joias cósmicas dotadas de poderes supremos, capazes de destruir todo o universo ao serem equipadas em conjunto. Sozinho na maior parte das vezes, o vilão salta de mundo em mundo para conquista-las. Quando descobre o paradeiro da Gema da Alma em Vormir (aparentemente, um corpo planetário interdimensional), depara-se com um panorama sublime de terras áridas e céu nebuloso, muito similar à representação do Inferno concebida por Gustave Doré no século XIX. As ilustrações desse artista francês determinam a nossa visão da obra de Dante até hoje. No planeta desconhecido, Thanos é recebido pelo Guardião da Gema (Ross Marquand), cujo dever é instruir aqueles em busca da misteriosa joia. Tal qual Virgílio no poema de Dante, o Guardião age como um psicopompo, ser que guia e orienta espontaneamente o personagem que o encontra, a fim de conduzi-lo em sua jornada. Mas, como Thanos logo percebe, a Gema da Alma requer um sacrifício. A provação consiste em livrar-se do último traço de humanidade que ainda lhe resta (não falaremos nada sobre isso para evitar spoiler), em uma barganha ao estilo do Fausto de Goethe.

Leia mais sobre a Divina Comédia em:

Danteworlds, apresentação multimídia sobre a obra de Dante criada por Guy Raffa, da Universidade do Texas. (em inglês)

The World of Dante, ferramenta de pesquisa multimídia para facilitar o estudo da Divina Comédia, elaborado pelo Institute for Advanced Technology in the Humanities da Universidade de Virgínia. (em inglês)

A Forma da Água, ou como não deixa-la escapar

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Indicado a 13 Oscars, A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) é um conto de fadas moderno. Ambientado no auge da Guerra Fria, nos anos 60 ainda com jeito de anos 50, conta a história de Elisa (Sally Hawkins), faxineira de um laboratório que sente forte atração pela criatura encarcerada em uma sala de segurança máxima. Ela é muda, enquanto a criatura (Doug Jones) tem uma linguagem própria, de modo que precisam se comunicar através de sinais. A conexão entre os dois vai aumentando dia após dia, até que eventualmente se apaixonam.

Conforme explica o diretor Guillermo del Toro, o mito da união entre mulher e criatura é muito antigo e pode ser encontrado em várias culturas. “Seja Zeus assumindo outras formas na mitologia grega, ou qualquer deus que modifica seus traços na mitologia asiática, todo país tem essa história”. A diferença entre o filme e os mitos é que, dessa vez, é a mulher quem toma as rédeas, subjugando a convenção narrativa da criatura do sexo masculino que persegue a presa feminina (apenas para provar, no final, que possui bondade humana). “No meu filme, é a mulher quem seduz a criatura”, explica del Toro em entrevista ao The Straits Times de Singapura. “Estou tentando mostrar que o amor é fluido, como a água, e toma a forma de tudo o que precisar”.

O verdadeiro monstro do filme é Strickland (Michael Shannon). Personificação do privilégio branco dos Estados Unidos daquele tempo, o egocêntrico agente do governo é um vilão aos moldes dos típicos heróis de filme de ação dos anos dourados, aqueles que encontram a grandeza ao matar o monstro. Fica bem claro que os personagens do filme foram inspirados nos heróis e vilões de clássicos do horror, como King Kong (Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, 1933) e O Monstro da Lagoa Negra (Creature from the Black Lagoon, Jack Arnold, 1954), em estilo Alice no País das Maravilhas. Essa relação “não é acidental”, afirma del Toro.

Uma referência direta à mitologia é feita por Giles (Richard Jenkins), vizinho de Elisa. Diante de uma vitrine com tortas suculentas, na lanchonete do bairro, ele diz à jovem: “Tântalo nunca conseguia escapar da morte. A fruta nos arbustos sempre esteve fora do alcance. A água no riacho sempre recuou quando ele tentava beber. É por isso que dizemos coisas como look at those tantalizing pies”. A tradução para esta frase seria “olhe para essas tortas tentadoras”, embora o adjetivo em português perca muito do seu sentindo.

De acordo com o The Concise Oxford Dictionary of English Etymology (2003) e com o A New Dictionary of Eponyms (2002), o adjetivo tantalizing vem do verbo to tantalize, aquilo que atormenta por ser extremamente tentador e não poder ser alcançado. Suas origens estão no latim Tantalus e no grego Tantalos. Tântalo é um personagem da mitologia grega, filho de Zeus e rei da Frígia. O que fez dele célebre na mitologia foi o castigo que sofreu nos Infernos, cuja descrição aparece na Odisseia. Os autores não estavam de acordo quanto ao castigo, mas o seu motivo teria sido o orgulho. Contava-se de Tântalo que os deuses o convidaram para seus banquetes. Orgulhoso com essa distinção, ele teria revelado aos homens os segredos divinos de que tomara conhecimento nessas ocasiões. Seu suplício seria a fome e a sede eternas: mergulhado na água até o pescoço, não podia beber, porque o líquido fugia sempre que tentava mergulhar nele a boca; um ramo carregado de frutos pendia sobre a sua cabeça, mas, se levantava o braço, o ramo erguia-se bruscamente fugindo de seu alcance.

Nos Estados Unidos dos anos 60, Tântalo torna-se metáfora social importante e permite analogias com os principais personagens do filme, como Elisa, Giles, Strickland, Zelda (Octavia Spencer) e a própria criatura. Quais analogias você identifica?

Leia mais:

The Shape Of Water is a woman-monster myth, says director Guillermo del Toro

Stream the Movies That Influenced ‘The Shape of Water’

Por Trás d’O Sacrifício do Cervo Sagrado

Atualizado em: 12 de fevereiro de 2018

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Considerado pelo portal VICE a tragédia mais significativa de 2017, O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer) é a quinta produção cinematográfica do grego Yorgos Lanthimos (Dente Canino, O Lagosta). A sua fonte de inspiração é Ifigênia em Áulis (408 a.C.), do poeta grego Eurípides. Embora não se trate de uma releitura literal, veremos que o filme traz ecos da tradição clássica, em uma trama densa e claustrofóbica que expõe, graficamente, o coração do horror corporal e revitaliza o poder dos mitos para o público moderno.

Dr. Steven Murphy (Colin Farrell) é um cirurgião cardíaco responsável pela morte de um paciente na mesa de operação. Anos mais tarde ele é visitado por Martin (Barry Keoghan), filho adolescente do homem morto, com o qual faz amizade. Até que o rapaz revela sua verdadeira intenção, punir o médico em nome do que entende por justiça. A regra é simples: Steven deve escolher entre matar sua filha (Raffey Cassidy), filho (Sunny Suljic) ou esposa (Nicole Kidman); do contrário, um a um eles perderão a habilidade de andar, deixarão de comer e começarão a sangrar pelos olhos – necessariamente nesta ordem –, morrendo logo em seguida. Assim, Martin tenta equilibrar a balança. A misteriosa doença é o aspecto mais sombrio do filme, no qual Steven parece tornar-se vítima da cólera de deuses vingativos.

Não por acaso, essa é a essência de Ifigênia em Áulis, o mito que inspirou o filme de Lanthimos e lhe deu nomeSegundo a lenda, Agamémnon provocara a cólera de Ártemis, a deusa da caça, que alterou o regime dos ventos, deixando a armada aqueia presa na ilha de Áulis, incapaz de seguir rumo a Tróia. Ao consultar o adivinho Calcas, Agamémnon descobriu que a cólera da deusa só poderia ser aplacada se consentisse em lhe sacrificar sua filha Ifigênia que, na altura, morava com a mãe em Micenas. Primeiro o pai recusou, mas, pressionado pela opinião geral e sobretudo por Menelau e Ulisses, teve de ceder. Ordenou então a vinda da filha, sob o pretexto de casá-la com Aquiles, e ordenou o seu sacrifício no altar de Ártemis. Porém, a deusa apiedou-se da jovem e colocou em seu lugar, como vítima, uma corça.

Leia mais: Decoding ‘The Killing of a Sacred Deer,’ the Craziest Tragedy of 2017

Quem são os Tao Tei de A Grande Muralha?

Atualizado em: 30 de julho de 2017

A Grande Muralha (2016) abre com uma panorâmica sobre a monumental construção que lhe deu nome, considerada uma das sete maravilhas do mundo moderno. Os textos explicativos informam o espectador que ela “permaneceu durante séculos como uma das maravilhas mais duradouras da humanidade (…). Ela protegia [o império chinês] de muitas ameaças. Algumas são conhecidas. Algumas são lendas. Esta é uma das lendas”. O filme conta a história de dois mercenários europeus, William (Matt Damon) e Tovar (Pedro Pascal), que procuravam pólvora quando acabaram se envolvendo na defesa da Grande Muralha da China contra uma horda de monstros conhecidos como “Tao Tei”.

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Tao Tei nos arredores da Muralha da China.

O conceito dos monstros de A Grande Muralha vem do termo t’ao-t’ieh ou taotie, cujas origens remontam à mitologia chinesa e sua representação através de elementos decorativos da arte do bronze. Dentre os vários artefatos produzidos pela civilização chinesa antiga, aqueles feitos em bronze sempre despertaram interesse nos arqueólogos pelo seu design sofisticado. Para as elites dos períodos Shang (c. 1600 a.C. – 1046 a.C.) e Chou (c. 1046 a.C. – 256 a.C.), os vasos feitos desse metal eram objetos rituais por excelência, pois serviam para armazenar o alimento destinado às cerimônias religiosas. Porém, não se sabe exatamente como esses recipientes eram usados, uma vez que as cerimônias do período Shang continuam sendo um mistério.

Acredita-se que o propósito das cerimônias era nutrir os espíritos ancestrais dos clãs, prática originária da crença pré-histórica de que os espíritos exigiam animais recém sacrificados — portanto, eles precisariam ser literalmente alimentados com sangue. Do ponto de vista do design e da estilística, a decoração dos vasos tem valor intrínseco. Para aqueles que os encomendavam e usavam, o aspecto ritualístico era primordial; como os rituais eram oferendas de alimentos, os vasos adquiriam extrema importância.

Os designs em bronze são fascinantes. Um motivo característico dos vasos do período Shang é a chamada máscara de taotie ou monstro, essencialmente uma face dividida ao meio e esticada no metal para que parecesse ter dois perfis ou um único rosto. Existem inúmeros tipos de taotie, que variam de acordo com a época de sua manufatura, com as diferenças regionais e com as inovações nas técnicas do artesanato. Eles eram utilizados também para adornar outros objetos, não apenas vasos. Em geral, a máscara era dotada de chifres e desprovida de mandíbula, e possuía um corpo que lembrava o desenho de um animal dividido ao meio.

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Decoração de cavalos na forma de máscara taotie, c. 1300-1050 a.C., China; Dinastia Shang (c. 1600-1050 aC). Cortesia do Asian Art Museum, The Avery Brundage Collection, B60B647. Fonte: https://www.khanacademy.org/
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Diagrama preparado por Edith Watts, The Metropolitan Museum of Art; Design de Sue Koch. Fonte: http://afe.easia.columbia.edu/

Pela semelhança com um dragão, o taotie foi relacionado ao lung, termo usado pelos chineses posteriormente  (e invariavelmente traduzido como “dragão”) para designar uma criatura fantástica. Na cultura chinesa tardia, o conceito de lung refere-se a um poderoso espírito masculino da fertilidade, com aparência de serpente, chifres, pernas e garras, que habita as profundezas das lagoas no inverno, sobe aos céus durante as tempestades da primavera e traz a chuva. O design do taotie, embora complexo, é similar à simbologia associada ao lung.

A figura do taotie está presente nos vasos de bronze mais antigos já encontrados, porém sua origem permanece um mistério. Diversas hipóteses foram propostas. A suposição inicial era a de que ele representava o animal sacrificado (um tigre ou crocodilo, por exemplo). Contudo, essa e outras especulações foram refutadas. Pode mesmo ser um erro pensar que seu significado fosse tão preciso para os artesãos da época. Além disso, o termo t’ao-t’ieh deriva de um texto do século III a.C., o Lü-shih ch’un-ch’iu, e significa “glutão”, um termo que não corresponde ao design padrão dos vasos. O que se nota é que os artistas do período Shang pareciam seriamente obcecados com formas de animais reais e imaginários.

O conceito foi adaptado para as telas de forma original, com um pé na tradição e o outro na fábrica de monstros de Hollywood. Os Tao Tei, como são chamados em A Grande Muralha, são criaturas grotescas. A cabeça é acoplada a um tórax robusto, com membros dianteiros longos e fortes, como os de um gorila. Porém, ela não passa de uma caveira descarnada, com sulcos rugosos que lembram metal retorcido. As órbitas são vazias, como se uma estranha evolução fizesse os globos migrarem para os ombros. Aí colocados, emulam dois perfis opostos. O crânio atrofiado e a boca cheia de dentes (sim, eles têm mandíbula) são o ponto em que esses dois perfis se encontram e se projetam para a frente. Um padrão decorativo se estende da fronte até as costas. A cintura e os membros traseiros, e os movimentos furtivos, são de lobo. A coloração da pele é verde, tom similar àquele das peças de bronze oxidado. Visual certamente inspirado nos antigos vasos chineses.

Mas é a interpretação de Hollywood que prevalece. No filme, os Tao Tei chegaram à Terra em um asteroide verde que caiu na montanha Gouwu 2.000 anos antes da história contada. Tal qual as abominações cósmicas de H.P. Lovecraft, são uma ameaça vinda do espaço. Sua morada é a montanha, onde vivem em estado de hibernação durante um ciclo de 60 anos. Sempre que o ciclo se fecha, eles despertam para se alimentar. São glutões temidos pela fome insaciável. Feras monstruosas, altamente proficientes e violentas, híbridos de alienígena com o ghoul do folclore árabe. Suas legiões se comportam como um enxame que devora tudo em seu caminho. Assim, o filme cria a sua própria lenda. Transforma os taotie em monstros “enviados pelo céu para punir a ganância do homem”. Vale lembrar que, na China antiga, acreditava-se que os eventos no céu refletiam diretamente os eventos na Terra. Se um cometa aparecesse repentinamente, por exemplo, algo importante e inesperado estava prestes a acontecer, talvez uma grande batalha. Ou uma invasão de seres do espaço?

Fontes:

PAPER, Jordan. “The Meaning of the ‘T’ao-T’ieh'” in History of Religions, Vol. 18, n. 1 (agosto, 1978), p. 18–41.

Asia for Educators – The Great Bronze Age of China: An Exhibition from the People’s Republic of China at The Metropolitan Museum of Art, New York. Disponível em: <http://afe.easia.columbia.edu/special/china_4000bce_bronze.htm&gt;.

The chinese sky. In: The International Dunhuang Project: The Silk Road Online. Disponível em: <http://idp.bl.uk/education/astronomy/sky.html&gt;.

Shang dynasty ritual bronze vessels. Disponível em: <https://www.khanacademy.org/humanities/art-asia/imperial-china/shang-dynasty/a/shang-dynasty-ritual-bronze-vessels&gt;.

Asas de Ícaro, feitas com o mais puro aço da Pensilvânia

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Preston Packard (Samuel L. Jackson) voando alto em direção à Ilha da Caveira.

“E lembrem-se da história de Ícaro, cujo pai lhe deu asas de cera… e advertiu-lhe que não voasse muito perto do Sol. Mas o entusiasmo era grande demais. Então ele voou cada vez mais alto, até o Sol derreter suas asas… e ele caiu no mar. Mas o exército dos Estados Unidos não é um pai irresponsável. Ele nos deu asas para lutar, feitas de aço quente fundido na Pensilvânia”. Estas são as palavras do tenente Preston Packard enquanto a sua esquadra de helicópteros atravessa uma tempestade elétrica. Típico solilóquio de Samuel L. Jackson, à prova de tudo e acima do Bem e do Mal. Em Kong: A Ilha da Caveira (2017), Packard comanda um destacamento das forças armadas norte-americanas, recém-retiradas do Vietnã em 1973, com a missão de escoltar um grupo de cientistas a uma ilha desconhecida, lar do poderoso Kong.

No intuito de levantar a moral dos seus homens, Packard narra uma história das mais conhecidas da mitologia grega, a fábula de Ícaro. O personagem principal desta história é filho de Dédalo com uma escrava de Minos, lendário soberano da ilha de Creta. Encarcerados no labirinto pelo rei, Ícaro e o pai puderam escapar graças aos pares de asas fabricadas por Dédalo. O artífice colou as asas com cera, prendendo-as deste modo aos seus ombros e aos do filho. Em seguida, ambos levantaram voo. Antes de partir, Dédalo recomenda a Ícaro que não voe nem muito baixo nem muito alto, advertindo-lhe que fique longe do Sol. Ícaro, entretanto, orgulhoso e entusiasmado de poder voar, ignora o conselho do pai e eleva-se cada vez mais nos ares, aproximando-se tanto do Sol que a cera derrete, as asas se desmancham e ele cai no mar. Os antigos explicavam a fábula das asas de Ícaro, relacionando-a à invenção da vela das embarcações. Segundo algumas versões, Dédalo e Ícaro fugiram de Creta em um barco. Certamente teriam mais sorte em um helicóptero de carga Chinook CH-47.

Mulher-Maravilha: A Princesa das Amazonas vai à Grande Guerra

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A Mulher-Maravilha (Gal Gadot) em ação: a liberdade chega às trincheiras.

Parte do universo cinematográfico da DC, Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017) tornou-se a mais lucrativa adaptação dos quadrinhos estrelada por uma super-heroína, faturando mais de 700 milhões de dólares em todo o mundo. A personagem-título, codinome de Diana, princesa das amazonas, é indiscutivelmente a heroína do filme. Ela age com bravura e altruísmo, serve de modelo ético e deixa uma mensagem idealista de força e amor. A produção levou às telas uma das personagens mais populares da DC, o que talvez explique o seu grande sucesso. Também toca no tema da diversidade e valoriza o trabalho em equipe, a coragem e a compaixão.

Há anos esperado pelos fãs, o primeiro filme solo da personagem surge em um momento de pressão (bem-sucedida, diga-se de passagem) por mais representatividade feminina nas mídias. Além disso, segue uma fórmula recorrente nos quadrinhos: parte da premissa de que uma realidade fantástica divide espaço com a nossa. Um mundo de deuses e heróis, intocado em sua glória bem debaixo do nosso nariz. Em Mulher-Maravilha, esse mundo é o que os gregos nos deixaram. Alguns temas e personagens foram tirados diretamente da mitologia grega. As referências abundam, a começar pelo nome da protagonista.

No filme, Diana é filha de Zeus, o mais importante dos deuses olimpianos. A filiação faria dela prima de Hércules, embora o personagem não exista no universo DC e tenha sido transformado em super-herói (e ex-integrante dos Vingadores) pela concorrente Marvel. Originalmente, Diana de Éfeso era a deusa itálica e romana de múltiplos seios. Seu nome é a versão latina de Ártemis, uma das doze divindades do Olimpo, filha de Zeus e Leto e irmã gêmea de Apolo. Eternamente jovem (e virgem), Ártemis era o tipo de donzela selvagem que encontrava na caça o seu maior prazer. Foi considerada a protetora das amazonas, as primeiras a lhe renderem culto, como ela guerreiras e caçadoras e, também como ela, libertas da dominação dos homens.

As amazonas são um povo de mulheres que descendem do deus da Guerra, Ares, e da ninfa Harmonia. Como quem sai aos seus não degenera, a sua paixão não podia ser outra senão a guerra. Elas dispensavam às filhas um tratamento endereçado à formação de guerreiras, e em várias ocasiões combateram heróis famosos, como Hércules e Teseu. No filme são vistas a treinar em regime espartano sob o comando de Antíope (Robin Wright), retratada como general das amazonas e irmã de Hipólita (Connie Nielsen). Na mitologia, Antíope é uma das filhas do deus-rio Ásopo ou do tebano Nicteu. Segundo outra versão, ela e Hipólita seriam a mesma pessoa.

As amazonas governam-se a si próprias, sem recorrer a nenhum homem. Na verdade, não toleram a presença de representantes do outro sexo a não ser como servidores ou para fins de procriação, uma vez por ano. Diana faz menção a essa utilidade dos homens em sua viagem para Londres com Steve Trevor (Chris Pine). Não por acaso, o espião americano despertou estranhamento em sua chegada à “Ilha Paraíso”, apelido que dá ao reino das mulheres guerreiras em tom jocoso, fazendo referência aos quadrinhos.

A mítica Temiscira, porto do país das amazonas, era localizado no Cáucaso ou na Ásia Menor. À sua frente estava sempre uma rainha, sendo Hipólita a mais conhecida e a mais poderosa entre as guerreiras daquela terra. Na mitologia, Hipólita era filha de Ares e foi dela que Hércules tomou o cinturão, presente do próprio deus da Guerra como símbolo do poder que a filha possuía sobre o seu povo. Essa relação de parentesco não é mencionada no filme. Pelo contrário, ele cria uma genealogia alternativa, uma nova versão do mito. Se Diana é filha de Zeus isso faz dela meia-irmã de Ares, o que será revelado mais tarde. Antes, Hipólita conta à pequena Diana (Lilly Aspell) sobre a traição do deus da Guerra, que incutiu o espírito do Combate no coração dos homens, tentou tomar o poder no Olimpo, mas acabou derrotado por Zeus.

Na temporalidade presente do filme, o ano é 1918 e as amazonas temem pelo retorno de Ares. A Grande Guerra segue devastadora na terra dos homens, um indício aparente da ação do deus no mundo. Logo, sabemos desde o início quem é o vilão da história, ou pelo menos quem inspira os homens a se digladiarem. A fortaleza do país das amazonas guarda equipamentos militares sagrados que mais tarde servirão à Diana em sua participação na Grande Guerra e no confronto final com o maligno deus. O Laço de Héstia, deusa dos lares, arma clássica da personagem que lhe permite enredar os inimigos e extrair deles a verdade; seu igualmente clássico escudo (aspis); e a “matadora de deuses”, espada de dois gumes (xiphos) da era do bronze grega que certamente deve mais à cultura pop do que à mitologia, com o mesmo atributo das armas usadas por Kratos para aniquilar deuses e deidades nos games da série God of War. Contudo, Diana acaba descobrindo ser ela própria a “matadora de deuses” (não muito diferente do que acontece com Kratos). Ela é A Escolhida, alegoria da liberdade guiando o povo — e a trupe de bastardos inglórios que a segue, bestificados diante do seu poder.

No clímax, a Mulher-Maravilha se coloca face a face com Ares (David Thewlis), deus que se alimenta da carnificina e do sangue. Enquanto heroína, ela se vê diante de um vilão imperialista interessado na aniquilação da humanidade. Enquanto mulher, ela se vê diante do seu antagonista histórico: o homo politicus, aristocrata conservador que dita as leis, as normas e o comportamento, homem branco em um mundo de homens, burocrata de terno e gravata que durante gerações negou às mulheres direito ao voto e maior participação na sociedade, que calou suas vozes e que, com uma canetada, é capaz de mudar o curso da civilização, transformando-a em um abatedouro que despedaça mulheres, crianças e outros homens. Mas a Mulher-Maravilha está lá para redimir a história e conquistar seu espaço. A espada, arma tradicionalmente usada por personagens masculinos, não por acaso se quebra e Diana salva o mundo com as próprias mãos (e com os pulsos de energia de seus braceletes defletores). Porque apesar de todos os vícios do ser humano ela acredita na maior das virtudes: o amor.