Categoria: Literatura

O Inferno de Thanos

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Atualizado em: 9 de maio de 2018.

Aproveitando a comoção mundial com o filme Vingadores: Guerra Infinita (Anthony e Joe Russo, 2018), vale ressaltar o que parece uma clara referência à Divina Comédia, do italiano Dante Alighieri. Considerado uma das obras mais importantes da literatura, esse poema medieval dividido em três partes — “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso” — tem inspirado a cultura popular há séculos, com sua grande variedade de temas e personagens. A história é bem conhecida. No início da primavera de 1300, Dante está perdido e sozinho em uma floresta sombria e ameaçadora. Para sobreviver a essa provação, ele deve visitar os três reinos da vida após a morte. O primeiro deles é o Inferno. A viagem pela morada eterna das almas perdidas, através dos nove círculos infernais, leva-o até o abismo no centro da terra. O narrador é o próprio Dante, que escolhe como guia o poeta clássico que ele mais admirava: Virgílio (70-19 a.C.). Famoso pelo épico Eneida, Virgílio viveu na Roma de Júlio César e Augusto, durante a transição da república para o império. A Divina Comédia é uma obra representativa da visão de mundo medieval, dominada pelo pensamento cristão, e funciona como alegoria da jornada da alma em direção a Deus. No aclamado terceiro filme dos Vingadores, o tirânico Thanos (Josh Brolin) segue em sua busca incansável pelas Gemas do Infinito, joias cósmicas dotadas de poderes supremos, capazes de destruir todo o universo ao serem equipadas em conjunto. Sozinho na maior parte das vezes, o vilão salta de mundo em mundo para conquista-las. Quando descobre o paradeiro da Gema da Alma em Vormir (aparentemente, um corpo planetário interdimensional), depara-se com um panorama sublime de terras áridas e céu nebuloso, muito similar à representação do Inferno concebida por Gustave Doré no século XIX. As ilustrações desse artista francês determinam a nossa visão da obra de Dante até hoje. No planeta desconhecido, Thanos é recebido pelo Guardião da Gema (Ross Marquand), cujo dever é instruir aqueles em busca da misteriosa joia. Tal qual Virgílio no poema de Dante, o Guardião age como um psicopompo, ser que guia e orienta espontaneamente o personagem que o encontra, a fim de conduzi-lo em sua jornada. Mas, como Thanos logo percebe, a Gema da Alma requer um sacrifício. A provação consiste em livrar-se do último traço de humanidade que ainda lhe resta (não falaremos nada sobre isso para evitar spoiler), em uma barganha ao estilo do Fausto de Goethe.

Leia mais sobre a Divina Comédia em:

Danteworlds, apresentação multimídia sobre a obra de Dante criada por Guy Raffa, da Universidade do Texas. (em inglês)

The World of Dante, ferramenta de pesquisa multimídia para facilitar o estudo da Divina Comédia, elaborado pelo Institute for Advanced Technology in the Humanities da Universidade de Virgínia. (em inglês)

Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes

Vinicius

Em 1954, Vinicius de Moraes escreveu a peça teatral “Orfeu da Conceição”, baseada no drama da mitologia grega Orfeu e Eurídice. A peça chamou a atenção de Victor Hugo Adler em seus estudos sobre o Estado Novo e a cultura daquele período. Embora a peça seja do início dos anos 50, Adler começou a perceber que ela trazia uma proposta muito afinada com o que seria o ideário da cultura brasileira no Estado Novo. “No tempo de Getúlio se teorizou muito sobre cultura. Alguns intelectuais estiveram empenhados em discutir que rumos dar à cultura brasileira (…) A proposta oficial do que seria uma cultura brasileira seria aquela que tomasse a cultura popular e a transformasse em algo que fosse (…) afinado com a civilização ocidental”, explica Adler. Nesse momento teve início uma série de referências, as quais Vinicius conseguiu ultrapassar durante a sua carreira.

Conforme o próprio Vinicius contava, comenta José Miguel Wisnik, ele leu o mito de Orfeu em Niterói, junto ao Morro do Cavalão, onde havia uma escola de samba ensaiando. As duas coisas se misturaram e ele sentiu que o mito grego podia se passar na favela e no samba. Assim ele teve o primeiro insight do que viria a ser “Orfeu”. Demorou mais de uma década para Vinicius realizar esse projeto. Ele foi amadurecendo a ideia e quando escreveu a peça precisava de alguém que a musicasse, então chegou ao nome do Tom Jobim. A partir da sua visão do que seria a autêntica cultura brasileira, Vinicius propõe que ela suba o morro. Propõe observar a cultura a partir do morro. Um movimento espontâneo da cultura que finalmente começa a se abrir para a contribuição dos negros, hoje tão óbvia, mas que não era óbvia há 50 anos, quando a cultura negra ainda não era valorizada.

O mito de Orfeu é um dos mais obscuros e carregados de simbolismo que a mitologia grega conhece. A mais célebre narrativa protagonizada por esse personagem é o da descida aos Infernos por amor à sua esposa, Eurídice. Certo dia, quando ela passeava na margem de uma ribeira da Trácia, foi perseguida por Aristeu, que pretendia violenta-la. Na fuga, pisou em uma serpente escondida na erva, que a mordeu causando-lhe a morte. Orfeu, inconsolável, desceu aos Infernos a fim de procura-la. Com a sua lira, encanta os monstros e os deuses que lá habitam. Hades e Perséfone consentem em devolver Eurídice ao esposo, tamanha a prova de amor. Mas impõem uma condição: Orfeu deve deixar o reino das trevas, seguido da mulher, sem olhar para trás. Ele aceita os termos e segue seu caminho. Estava quase vendo a luz do dia quando uma terrível dúvida lhe perturbou: teria ele sido enganado? Logo se volta para trás, vendo Eurídice desaparecer e morrer pela segunda vez. Tenta voltar aos Infernos para a procurar, mas Caronte agora está inflexível e lhe recusa a entrada no mundo inferior. É então obrigado a voltar ao mundo dos humanos, desconsolado.

Veja o documentário “Vinicius – O Olhar do Lirismo” no site da TV Escola: https://tvescola.mec.gov.br/tve/video/vinicius-o-olhar-do-lirismo