Categoria: Televisão

As manchas de sangue da Operação Cérbero

Punisher+cerberus

No quinto episódio da série Justiceiro, da Netflix (The Punisher, S01E05 – Gunner, 2017), Frank Castle conversa com seu aliado David Lieberman, perigoso hacker e ex-analista da Agência de Segurança Nacional (National Security Agency, NSA). Ninguém além de Castle sabe que Lieberman está vivo. Perseguido pelo governo, ele teve de forjar a própria morte para salvar o pescoço e garantir a segurança de sua família. A vida do hacker entrou em turbilhão depois que ele, operando sob o codinome “Micro”, vazou informações confidenciais das forças armadas. Mais que confidenciais, profundamente comprometedoras: prova dos crimes de guerra cometidos durante a guerra no Afeganistão. A série tem como pano de fundo esse capítulo manchado de sangue da infame Guerra ao Terror, mais especificamente os eventos que sucederam a queda do governo do Talibã e o surgimento de diversas organizações terroristas. Estas células desafiaram o governo montado pela coalizão, levando os Estados Unidos a uma das guerras mais longas e desgastantes de sua história.

As informações expostas por Lieberman revelaram as verdadeiras intenções da chamada Operação Cérbero, uma operação militar secreta com o suposto objetivo de rastrear e eliminar terroristas. As missões do Esquadrão Cérbero, estacionado em Kandahar, envolviam a captura, o interrogatório e a execução de alvos valiosos. Contudo, as atividades da tropa de elite não eram apenas imorais; eram também ilegais, pois não haviam sido sancionadas pelo Congresso. Os membros do Esquadrão, com as mãos sujas de sangue, não tinham conhecimento disso, muito menos de que toda a operação servia de fachada para um esquema de contrabando de heroína (dentro dos corpos de soldados mortos). “A operação em Kandahar era chamada de Cérbero. Cão do inferno, cão de guarda de muitas cabeças do submundo.” Lieberman explica a Castle. “Cérbero vem de Kérberos, do grego. Que significa manchado. Então Hades, o senhor dos mortos, literalmente chamou seu cão de manchado”. Mas Castle não se interessa por mitologia, e pergunta se o parceiro já terminou de falar.

Na mitologia grega, Cérbero é um dos monstros que guardavam o reino dos mortos. O cão de três cabeças com cauda de serpente é a imagem mais comum desse monstro, embora ele seja descrito em outras versões com cinquenta ou até mesmo cem cabeças. Diz-se que ficava acorrentado diante da porta do inferno e aterrorizava as almas no momento em que lá entravam. Até aí Lieberman está certo, o problema está na suposta etimologia do nome Cérbero. J. P. Mallory e D. Q. Adams (2006, p. 439) relacionam o grego Kérberos, o cão do Hades, ao sânscrito Sarvarā, termo usado para designar um dos cães de Yama, deus da morte e do submundo, sugerindo que ambos se tratam de nomes cognatos derivados de uma mesma palavra protoindo-europeia que significava “manchado”. Esta explicação, que provavelmente embasou a fala de Lieberman, foi contestada por diversos autores. D. Ogden (2013, p. 74) rejeita uma outra hipótese, segundo a qual o nome é derivativo de creoboros, “devorador de carne”. A etimologia de Cérbero permanece obscura. Mas, considerando o papel desse monstro na mitologia, vemos que o seu nome cabe perfeitamente a uma operação militar ficcional da famigerada Guerra ao Terror. Frank Castle e seus colegas, todos descartáveis, eram cães de guarda dos falcões da guerra. Múltiplas cabeças do esquadrão secreto, os combatentes estiveram a todo tempo acorrentados ao mundo dos mortos: em combate, derramando sangue em Kandahar; e de volta à América, com o traumático fardo que trouxeram consigo.

 

Fontes:

Ogden, Daniel. Dragons, Serpents, and Slayers in the Classical and early Christian Worlds: A sourcebook. Oxford University Press, 2013.

Mallory, J. P.; Adams, D. Q. The Oxford Introduction to Proto-Indo-European and the Proto-Indo-European World. Oxford, GBR: Oxford University Press, 2006.

Odin, mais conhecido como Gládio de Guerra, Mascarado, Andarilho… e Sr. Quarta-Feira

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Mr. Wednesday (Ian McShane), na série American Gods.

O Sr. Quarta-Feira é um personagem central de American Gods. Ele é um dos deuses antigos, mas não é um deus qualquer. É Odin, a deidade suprema dos escandinavos, criador do universo e do homem, senhor de Valhalla e pai de vários deuses, como Thor e Balder. Seu nome deriva do termo ódr, que em nórdico arcaico é equivalente ao latim furor. Ele também possui nomes mais antigos, com o mesmo significado: Wöden (Anglo-saxão), Woden (Saxão antigo), Wodan (Francônico antigo), Wutan e Wuotan (Antigo Alto Alemão), entre outros.

De acordo com American Gods, Odin chegou ao Novo Mundo com um grupo de exploradores nórdicos no ano de 813 d.C., e desde então vive nos Estados Unidos. Ao revelar a sua verdadeira identidade a Shadow Moon, no episódio final da primeira temporada (Come to Jesus), o Sr. Quarta-Feira entoa: “Eu sou Gládio de Guerra, Mascarado, Andarilho e Terceiro. Eu sou O Caolho, também chamado de O Superior e Verdadeiro Adivinho. Eu sou Grimnir e o Encapuzado. Eu sou O Pai de Todos, Gondlir, O Portador do Cajado. Eu tenho tantos nomes quanto são os ventos e tantos títulos quando são as formas de morrer. Meus corvos são Hugin e Munin, Pensamento e Memória, meus lobos são Freki e Geri, meu cavalo é o Cadafalso. EU SOU ODIN!”. O céu se fecha e relâmpagos explodem em todas as direções, impelidos pelo seu poder divino.

O Sr. Quarta-Feira faz alusão aos seus vários nomes (seriam cerca de 170, a maioria inventada durante a Alta Idade Média). No inglês arcaico (Saxão), Odin era denominado Woden; a palavra moderna Wednesday (quarta-feira, em inglês) vem de Woden’s day (“dia de Woden”), por isso, “Sr. Quarta-Feira”. Os nórdicos e os saxões tinham uma cultura e uma religião muito parecidas; e, embora os saxões tenham adotado o cristianismo depois de sua migração para a Bretanha, ainda há reminiscências do seu passado mitológico na variante moderna de sua língua, o inglês.  O personagem também menciona seus míticos animais de estimação: dois corvos, dois lobos e o cavalo de oito patas, todos presentes na literatura nórdica mais antiga.

A concepção do personagem para a série, engrandecida pela performance do ator Ian McShane, revela características marcantes de sua identidade secreta divina. A inteligência aguçada e os comentários perspicazes (para não dizer irônicos), próprios do deus nórdico da sabedoria; a onisciência, que lhe permite pôr ordem na hierarquia dos deuses; a dissimulação, capacidade de viajar incógnito, sempre nos bastidores do mundo dos homens; o gosto por hidromel, a bebida dos deuses. Vale lembrar que Odin, para obter o conhecimento, ficou cego de um dos olhos. A aparência morta da pupila direita é uma dica para a identidade do personagem, desde sua primeira aparição.