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Mulher-Maravilha: A Princesa das Amazonas vai à Grande Guerra

WONDER WOMAN
A Mulher-Maravilha (Gal Gadot) em ação: a liberdade chega às trincheiras.

Parte do universo cinematográfico da DC, Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017) tornou-se a mais lucrativa adaptação dos quadrinhos estrelada por uma super-heroína, faturando mais de 700 milhões de dólares em todo o mundo. A personagem-título, codinome de Diana, princesa das amazonas, é indiscutivelmente a heroína do filme. Ela age com bravura e altruísmo, serve de modelo ético e deixa uma mensagem idealista de força e amor. A produção levou às telas uma das personagens mais populares da DC, o que talvez explique o seu grande sucesso. Também toca no tema da diversidade e valoriza o trabalho em equipe, a coragem e a compaixão.

Há anos esperado pelos fãs, o primeiro filme solo da personagem surge em um momento de pressão (bem-sucedida, diga-se de passagem) por mais representatividade feminina nas mídias. Além disso, segue uma fórmula recorrente nos quadrinhos: parte da premissa de que uma realidade fantástica divide espaço com a nossa. Um mundo de deuses e heróis, intocado em sua glória bem debaixo do nosso nariz. Em Mulher-Maravilha, esse mundo é o que os gregos nos deixaram. Alguns temas e personagens foram tirados diretamente da mitologia grega. As referências abundam, a começar pelo nome da protagonista.

No filme, Diana é filha de Zeus, o mais importante dos deuses olimpianos. A filiação faria dela prima de Hércules, embora o personagem não exista no universo DC e tenha sido transformado em super-herói (e ex-integrante dos Vingadores) pela concorrente Marvel. Originalmente, Diana de Éfeso era a deusa itálica e romana de múltiplos seios. Seu nome é a versão latina de Ártemis, uma das doze divindades do Olimpo, filha de Zeus e Leto e irmã gêmea de Apolo. Eternamente jovem (e virgem), Ártemis era o tipo de donzela selvagem que encontrava na caça o seu maior prazer. Foi considerada a protetora das amazonas, as primeiras a lhe renderem culto, como ela guerreiras e caçadoras e, também como ela, libertas da dominação dos homens.

As amazonas são um povo de mulheres que descendem do deus da Guerra, Ares, e da ninfa Harmonia. Como quem sai aos seus não degenera, a sua paixão não podia ser outra senão a guerra. Elas dispensavam às filhas um tratamento endereçado à formação de guerreiras, e em várias ocasiões combateram heróis famosos, como Hércules e Teseu. No filme são vistas a treinar em regime espartano sob o comando de Antíope (Robin Wright), retratada como general das amazonas e irmã de Hipólita (Connie Nielsen). Na mitologia, Antíope é uma das filhas do deus-rio Ásopo ou do tebano Nicteu. Segundo outra versão, ela e Hipólita seriam a mesma pessoa.

As amazonas governam-se a si próprias, sem recorrer a nenhum homem. Na verdade, não toleram a presença de representantes do outro sexo a não ser como servidores ou para fins de procriação, uma vez por ano. Diana faz menção a essa utilidade dos homens em sua viagem para Londres com Steve Trevor (Chris Pine). Não por acaso, o espião americano despertou estranhamento em sua chegada à “Ilha Paraíso”, apelido que dá ao reino das mulheres guerreiras em tom jocoso, fazendo referência aos quadrinhos.

A mítica Temiscira, porto do país das amazonas, era localizado no Cáucaso ou na Ásia Menor. À sua frente estava sempre uma rainha, sendo Hipólita a mais conhecida e a mais poderosa entre as guerreiras daquela terra. Na mitologia, Hipólita era filha de Ares e foi dela que Hércules tomou o cinturão, presente do próprio deus da Guerra como símbolo do poder que a filha possuía sobre o seu povo. Essa relação de parentesco não é mencionada no filme. Pelo contrário, ele cria uma genealogia alternativa, uma nova versão do mito. Se Diana é filha de Zeus isso faz dela meia-irmã de Ares, o que será revelado mais tarde. Antes, Hipólita conta à pequena Diana (Lilly Aspell) sobre a traição do deus da Guerra, que incutiu o espírito do Combate no coração dos homens, tentou tomar o poder no Olimpo, mas acabou derrotado por Zeus.

Na temporalidade presente do filme, o ano é 1918 e as amazonas temem pelo retorno de Ares. A Grande Guerra segue devastadora na terra dos homens, um indício aparente da ação do deus no mundo. Logo, sabemos desde o início quem é o vilão da história, ou pelo menos quem inspira os homens a se digladiarem. A fortaleza do país das amazonas guarda equipamentos militares sagrados que mais tarde servirão à Diana em sua participação na Grande Guerra e no confronto final com o maligno deus. O Laço de Héstia, deusa dos lares, arma clássica da personagem que lhe permite enredar os inimigos e extrair deles a verdade; seu igualmente clássico escudo (aspis); e a “matadora de deuses”, espada de dois gumes (xiphos) da era do bronze grega que certamente deve mais à cultura pop do que à mitologia, com o mesmo atributo das armas usadas por Kratos para aniquilar deuses e deidades nos games da série God of War. Contudo, Diana acaba descobrindo ser ela própria a “matadora de deuses” (não muito diferente do que acontece com Kratos). Ela é A Escolhida, alegoria da liberdade guiando o povo — e a trupe de bastardos inglórios que a segue, bestificados diante do seu poder.

No clímax, a Mulher-Maravilha se coloca face a face com Ares (David Thewlis), deus que se alimenta da carnificina e do sangue. Enquanto heroína, ela se vê diante de um vilão imperialista interessado na aniquilação da humanidade. Enquanto mulher, ela se vê diante do seu antagonista histórico: o homo politicus, aristocrata conservador que dita as leis, as normas e o comportamento, homem branco em um mundo de homens, burocrata de terno e gravata que durante gerações negou às mulheres direito ao voto e maior participação na sociedade, que calou suas vozes e que, com uma canetada, é capaz de mudar o curso da civilização, transformando-a em um abatedouro que despedaça mulheres, crianças e outros homens. Mas a Mulher-Maravilha está lá para redimir a história e conquistar seu espaço. A espada, arma tradicionalmente usada por personagens masculinos, não por acaso se quebra e Diana salva o mundo com as próprias mãos (e com os pulsos de energia de seus braceletes defletores). Porque apesar de todos os vícios do ser humano ela acredita na maior das virtudes: o amor.