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Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes

Vinicius

Em 1954, Vinicius de Moraes escreveu a peça teatral “Orfeu da Conceição”, baseada no drama da mitologia grega Orfeu e Eurídice. A peça chamou a atenção de Victor Hugo Adler em seus estudos sobre o Estado Novo e a cultura daquele período. Embora a peça seja do início dos anos 50, Adler começou a perceber que ela trazia uma proposta muito afinada com o que seria o ideário da cultura brasileira no Estado Novo. “No tempo de Getúlio se teorizou muito sobre cultura. Alguns intelectuais estiveram empenhados em discutir que rumos dar à cultura brasileira (…) A proposta oficial do que seria uma cultura brasileira seria aquela que tomasse a cultura popular e a transformasse em algo que fosse (…) afinado com a civilização ocidental”, explica Adler. Nesse momento teve início uma série de referências, as quais Vinicius conseguiu ultrapassar durante a sua carreira.

Conforme o próprio Vinicius contava, comenta José Miguel Wisnik, ele leu o mito de Orfeu em Niterói, junto ao Morro do Cavalão, onde havia uma escola de samba ensaiando. As duas coisas se misturaram e ele sentiu que o mito grego podia se passar na favela e no samba. Assim ele teve o primeiro insight do que viria a ser “Orfeu”. Demorou mais de uma década para Vinicius realizar esse projeto. Ele foi amadurecendo a ideia e quando escreveu a peça precisava de alguém que a musicasse, então chegou ao nome do Tom Jobim. A partir da sua visão do que seria a autêntica cultura brasileira, Vinicius propõe que ela suba o morro. Propõe observar a cultura a partir do morro. Um movimento espontâneo da cultura que finalmente começa a se abrir para a contribuição dos negros, hoje tão óbvia, mas que não era óbvia há 50 anos, quando a cultura negra ainda não era valorizada.

O mito de Orfeu é um dos mais obscuros e carregados de simbolismo que a mitologia grega conhece. A mais célebre narrativa protagonizada por esse personagem é o da descida aos Infernos por amor à sua esposa, Eurídice. Certo dia, quando ela passeava na margem de uma ribeira da Trácia, foi perseguida por Aristeu, que pretendia violenta-la. Na fuga, pisou em uma serpente escondida na erva, que a mordeu causando-lhe a morte. Orfeu, inconsolável, desceu aos Infernos a fim de procura-la. Com a sua lira, encanta os monstros e os deuses que lá habitam. Hades e Perséfone consentem em devolver Eurídice ao esposo, tamanha a prova de amor. Mas impõem uma condição: Orfeu deve deixar o reino das trevas, seguido da mulher, sem olhar para trás. Ele aceita os termos e segue seu caminho. Estava quase vendo a luz do dia quando uma terrível dúvida lhe perturbou: teria ele sido enganado? Logo se volta para trás, vendo Eurídice desaparecer e morrer pela segunda vez. Tenta voltar aos Infernos para a procurar, mas Caronte agora está inflexível e lhe recusa a entrada no mundo inferior. É então obrigado a voltar ao mundo dos humanos, desconsolado.

Veja o documentário “Vinicius – O Olhar do Lirismo” no site da TV Escola: https://tvescola.mec.gov.br/tve/video/vinicius-o-olhar-do-lirismo