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A Forma da Água, ou como não deixa-la escapar

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Indicado a 13 Oscars, A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) é um conto de fadas moderno. Ambientado no auge da Guerra Fria, nos anos 60 ainda com jeito de anos 50, conta a história de Elisa (Sally Hawkins), faxineira de um laboratório que sente forte atração pela criatura encarcerada em uma sala de segurança máxima. Ela é muda, enquanto a criatura (Doug Jones) tem uma linguagem própria, de modo que precisam se comunicar através de sinais. A conexão entre os dois vai aumentando dia após dia, até que eventualmente se apaixonam.

Conforme explica o diretor Guillermo del Toro, o mito da união entre mulher e criatura é muito antigo e pode ser encontrado em várias culturas. “Seja Zeus assumindo outras formas na mitologia grega, ou qualquer deus que modifica seus traços na mitologia asiática, todo país tem essa história”. A diferença entre o filme e os mitos é que, dessa vez, é a mulher quem toma as rédeas, subjugando a convenção narrativa da criatura do sexo masculino que persegue a presa feminina (apenas para provar, no final, que possui bondade humana). “No meu filme, é a mulher quem seduz a criatura”, explica del Toro em entrevista ao The Straits Times de Singapura. “Estou tentando mostrar que o amor é fluido, como a água, e toma a forma de tudo o que precisar”.

O verdadeiro monstro do filme é Strickland (Michael Shannon). Personificação do privilégio branco dos Estados Unidos daquele tempo, o egocêntrico agente do governo é um vilão aos moldes dos típicos heróis de filme de ação dos anos dourados, aqueles que encontram a grandeza ao matar o monstro. Fica bem claro que os personagens do filme foram inspirados nos heróis e vilões de clássicos do horror, como King Kong (Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, 1933) e O Monstro da Lagoa Negra (Creature from the Black Lagoon, Jack Arnold, 1954), em estilo Alice no País das Maravilhas. Essa relação “não é acidental”, afirma del Toro.

Uma referência direta à mitologia é feita por Giles (Richard Jenkins), vizinho de Elisa. Diante de uma vitrine com tortas suculentas, na lanchonete do bairro, ele diz à jovem: “Tântalo nunca conseguia escapar da morte. A fruta nos arbustos sempre esteve fora do alcance. A água no riacho sempre recuou quando ele tentava beber. É por isso que dizemos coisas como look at those tantalizing pies”. A tradução para esta frase seria “olhe para essas tortas tentadoras”, embora o adjetivo em português perca muito do seu sentindo.

De acordo com o The Concise Oxford Dictionary of English Etymology (2003) e com o A New Dictionary of Eponyms (2002), o adjetivo tantalizing vem do verbo to tantalize, aquilo que atormenta por ser extremamente tentador e não poder ser alcançado. Suas origens estão no latim Tantalus e no grego Tantalos. Tântalo é um personagem da mitologia grega, filho de Zeus e rei da Frígia. O que fez dele célebre na mitologia foi o castigo que sofreu nos Infernos, cuja descrição aparece na Odisseia. Os autores não estavam de acordo quanto ao castigo, mas o seu motivo teria sido o orgulho. Contava-se de Tântalo que os deuses o convidaram para seus banquetes. Orgulhoso com essa distinção, ele teria revelado aos homens os segredos divinos de que tomara conhecimento nessas ocasiões. Seu suplício seria a fome e a sede eternas: mergulhado na água até o pescoço, não podia beber, porque o líquido fugia sempre que tentava mergulhar nele a boca; um ramo carregado de frutos pendia sobre a sua cabeça, mas, se levantava o braço, o ramo erguia-se bruscamente fugindo de seu alcance.

Nos Estados Unidos dos anos 60, Tântalo torna-se metáfora social importante e permite analogias com os principais personagens do filme, como Elisa, Giles, Strickland, Zelda (Octavia Spencer) e a própria criatura. Quais analogias você identifica?

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